domingo, 22 de janeiro de 2012

Choque cultural


Eu até poderia dizer que o choque cultural foi causado pela quantidade de vacas e bois nas ruas das grandes cidades. Ou quem sabe por causa da comida daqui, dieta baseada em pão, gosma verde, pimenta, gosma vermelha e mais pimenta. Ou  seriam os símbolos religiosos? Deuses azuis e com (vários) braços abertos em vez de um homem ensanguentado e com os (dois) braços pregados numa cruz. Tem gente que se impressiona com a suástica, aqui orgulhosamente pintada nas paredes das casas de gente que não tem a menor ligação com o nazismo e nem o costume de gritar Heil Hitler. Nada disso. Essas diferenças foram pequenas, coisa pouca a que eu facilmente me acostumei. O verdadeiro choque cultural, aquele me fez querer esconder debaixo da cama e rezar por uma tempestade de passagens de volta para o Brasil,  foi causado pela… buzina.
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A galera que frequenta esse lugar não é nazista.

Quando cheguei, eu não entendia  sequer uma palavra na língua deles – fosse inglês ou hindi, não importava. Sotaque ou o fator outro idioma não permitiam a comunicação. Mas isso, isso eu compreendia. Palavras mudam de significado conforme o país. Buzinas não. Por trás de cada buzinada, seja no Brasil ou do outro lado do mundo, o mesmo mantra: desgraçado, filho da puta, lerdo. O grau de ofensa varia conforme o tempo que a mão fica na buzina. Se o motorista encosta de leve, aí tudo bem, pode ser só um “beleza, cara, como vai”; ou um “cuidado, a porta da frente do seu carro está meio aberta”. Pra buzinadas de mais de 2 segundos, nada de recado simpático.  A mensagem é sempre ofensiva. Sempre.

Ahh, e como esses indianos buzinam, acho que uma vez a cada 4,3 segundos, mas faltam estudos aprofundados (Universidades britânicas, esse é um campo fértil para pesquisas infrutíferas. Fica a dica). Buzinam pra tudo. Buzinam pra dizer que querem passar. Buzinam para dizer que vão virar à esquerda. Buzinam se a conversão for à direita. Buzinam pra vaca. Buzinam pro cara de bicicleta. Buzinam de dia. Buzinam de noite. Buzinam durante um engarrafamento. Buzinam se estiverem sozinhos na estrada. Buzinam, sempre. Deve ser um dos esportes nacionais, junto com o críquete, o hóquei e a barganha. E o melhor: sem muitas regras. Basta buzinar.

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Imagine o susto que uma pessoa que encara toda buzinada como ofensa levou ao desembarcar em um país que onde buzinadas são algo corriqueiro, nada de mais…

- Ok. Estamos no aeroporto. Agora temos que ir pra rodoviária. De lá damos um jeito de chegar em Chandigarh. O que vocBUUUUUOOOOEEENNNNNN. (Pulo de 2 metros. Malas e mochilas voam, motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)

- Até que Chandigarh é uma cidade interessante. Não é tão suja,  desorganizada ou barulhenta. Vou tirar uma fotBUUUUUOOOOEEENNNNNN. (Pulo de 2 metros. Câmera voa. motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)

- Essa noite até que dormi bem. Silêncio é artigo raro na Índia. Mas hoje estou preparado para trabalhar e de muito bom humBUUUUUOOOOEEENNNNNN. ( Pulo de 2 metros. Bom humor voa pra longe e é substituído pela terrível vontade de enforcar um buzinador. Motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)

- Compramos macarrão, frutas, queijo, ovos… Faltou alguma coiBUUUUUOOOOEEENNNNNN. (Pulo de 2 metros. Ovos voam. Motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)

Hoje, sei que tudo não passa de um teste. Sabe aquele povo que viaja pra Índia em busca de algo espiritual? Bem, as buzinadas são parte do processo. Elas me ensinaram a manter a concentração. Me ensinaram a não mandar 1 bilhão e 2 milhões de pessoas pro inferno. Me ensinaram a ter paz e tranquilBUUUUUOOOOEEENNNNNN. (Pulo de 2 metros. Fim do devaneio, paz e tranquilidade voam, e eu ameaço correr atrás do maldito tuk-tuk, carro, ônibus ou seja lá o que for. Motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E muito feliz.)

IMG_3211A melhor metáfora pra Índia é a da vaca. Um indiano vivia numa casa de um cômodo com sua esposa, 17 filhos, 4 netos e 3 cachorros. Em resumo, o caos e o horror, o horror.  Desesperado, ele busca os conselhos de um sábio Hindu: “Não aguento mais. Não consigo viver naquele lugar. Me aponte uma saída por Shiva ou uma Brahma para afogar minhas mágoas.  O sábio, com um olhar fanfarrão, diz: “encontre a primeira vaca e leva-a para morar com vocês.” E o homem segue o conselho, não exatamente confiante que a santidade do novo membro da família resolva o problema. 2 dias e – agora sim – o perfeito caos e horror. “Eu não dou conta. Agora meus filhos querem matar os cachorros, que tentam morder a vaca, que deixa bosta pra tudo que é lado, que é pisada por mim, que tento matar meus filhos. Eu imploro! Me ajude!”. O sábio, que afinal tinha lá mesmo alguma sabedoria (ele não quis dividir a Brahma), diz ao homem desesperado: “Agora você pode tirar a vaca de lá.” E a vida do homem nunca antes fora tão boa e tranquila, nem tampouco achou ele algum motivo para reclamar pelo resto dos seus dias.

A Índia é minha vaca, e nada me faltará. Agora sei que buzinas nem sempre significam desgraçado, filho da puta ou lerdo. Podem ser só um costume ou esporte local, assim como no Brasil gostamos de Futebol, Carnaval e de um pouquinho de autodepreciação. Eu não entendia  sequer uma palavra na língua deles – fosse inglês, punjab ou bengali - mas mesmo assim aprendi a lição. Quando eu voltar ao Brasil, tenho certeza que vou encarar nossos trânsitos infernais como se fossem um resort de luxo no caribe. Nunca mais me ofenderei com uma buzinada alheia. Não. Agora sou uma pessoa calma e tranquilidade é meu sobrenomBUUUUUOOOOEEENNNNNN (Pulo de 2 metros. “Motorista desgraçado, fdp”. Ele vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)

P.S.: Sim, esse blog voltou. E sim, estou morando na Índia, mas acho que todo mundo já sabe disso. Conto todas as outras histórias sobre a Índia no blog 360meridianos. Esse aqui terá os assuntos de sempre com a regularidade de nunca.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O retorno

Para quando você encontrar meu corpo.

Junho de 2011 - Já nem me lembro quando meu jejum forçado começou. É verdade que notei que o tempo de abundância de alimento, de fartos banquetes, estava ficando para trás. Mas não percebi que minha principal fonte de energia ia se esgotar completamente. Acostumado com o excesso, não me resguardei para um tempo de necessidade. Há dez dias passo fome. Sim, fome! Ou você acha que apenas humanos precisam de alimento? Meus nutrientes podem não ser iguais aos seus - não vejo graça no tal do churrasco e tenho nojo da sua tão amada cerveja - mas são importantes. Você, insensível, continua com sua vida e me deixa assim! Se esqueceu que sou criação sua, que se não fosse por vontade sua eu não estaria aqui, não passaria fome... Vai ter troco, desgraçado.

3 de julho de 2011 - Se meu dono se esqueceu de mim, então minha única saída parece ser esperar - e até implorar – por alimento. Eu, que sempre estive atualizado, que em meus tempos de glória tinha em excesso, me converti em um mendigo. Sobrevivo apenas pelas doações de outros: aguardo ansiosamente por cada frase, cada palavra, cada letra de apoio. Eu preciso delas. Sonho com um mar de palavras sem fim, grandes e pequenas... Palavras, minha comida preferida... Pena que agora dependo de visitantes. Tudo bem. Enquanto existirem os comentários caridosos dos visitantes, as cobranças dos amigos dele (desgraçado do capeta!) ou mesmo aqueles inumeráveis spams; eu vou sobreviver. Quem me dera ter um troll...

20 de julho de 2011 - Isso é crueldade, que merda, acho que você passou dos limites, me deixa sem alimento, se esquece de mim, não me visita, tudo bem, tudo isso eu supero, aguento, suporto meu mundo de jejum, aceito sua ausência de palavras - mas isso é demais, porra, o que custava você pagar a merda da conta? Vinte reais! Só vinte reais! Mas não, você esquece de pagar a porcaria da conta dessa bosta de domínio e me tira do ar! Eu vivo de palavras! Se você não se preocupa mais em postar porra nenhuma, então podia ao menos pagar essa desgraça de domínio! Há um mês que eu me alimentava só de spams, desgraça! Agora vou morrer de fome...

Aqui Rafael - Você foi recuperado na última hora. Eu podia dizer que a culpa não foi minha. Mas a verdade é que fui negligente com você. Desculpa... Por pouco não te perco pra sempre - o que umas cervejas a mais e um computador de menos não causam? A partir de agora voltamos ao normal.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Do inferno

O inferno não existe, mas todos sabem que ele está cheio de estupradores, políticos corruptos e adeptos das dinâmicas de grupo. Se a presença no churrasco com cheirinho de carne queimada é consenso no caso dos dois primeiros grupos, os fãs das dinâmicas costumam ficar de fora das mais tradicionais listas de convidados do capeta: prova de que muita gente não conhece os métodos modernos de tortura.

Sim, tortura. De todas as etapas dos processos seletivos, nenhuma deve ser tão temida como aquela em que o avaliador distribui papel, caneta e diz “agora vamos fazer uma coisa divertida para nos conhecermos melhor”. Bobagem. O que ele queria dizer é algo do tipo “quando eu contar até três todos  devem esconder seus defeitos, mentir e fingir ser o que não são. Quem tiver talento para retórica ou malabares saí na frente! Valendo!”

Não é sem motivo que os tímidos e não mentirosos do pedaço são eliminados. Isso sem falar quando o avaliador dá o azar de ter, entre os seus candidatos, uma pessoa que sofra do terrível mal da sinceridade. Neste caso os resultados variam desde o “dinâmicas de grupo são estúpidas e não vou participar disso, tchau”, ao cara que, babando, arremessa uma cadeira no avaliador e diz que nenhum ser humano normal consegue se definir em uma palavra. E avaliador, cuidado: ao sair da sala o sincero ainda pode mandar você enfiar cada uma daquelas bolinhas de papel que representam a diferença entre a alegria e a felicidade onde for mais conveniente para você.

Há quem acredite que o inferno é uma espécie de repartição pública em que cada alma detenta cumpre uma pena baseada na lei “olho por olho, dente por dente, fiofó por fiofó. Ou seja, no primeiro andar você encontra milhões de estupradores e condenados por crimes sexuais. Na porta, os carrascos, centauros com 3 metros (de altura) e (aparentemente) cinco patas recebem os novos moradores. Fãs do Kubrick, eles adoram realizar seu trabalho cantarolando baixinho uma versão infernal de Singin in the Rain.

Os políticos corruptos descem no andar 171, enquanto os honestos ficam no 170. A punição desses setores é controversa: boatos dizem que é uma fila do SUS, mas fontes confiáveis garantem que as almas são forçadas a assistir eternamente as discussões de seus antigos colegas, na TV Senado.

Mas nada se compara ao temerário setor das dinâmicas de grupo. Nada.
-Olá! Vamos passar os próximos dois milhões de anos fazendo um joguinho divertido para nos conhecermos melhor. Quero que cada um de vocês escolha um papel colorido da caixinha ali do fundo e escreva uma palavra que signifique algo pra você. Depois, escolha uma que você acha que descreva o seu colega ao lado. No fim, quero que vocês amassem o papel e formem um círculo aqui no meio. Todos irão fechar os olhos e dizer uma palavra, apenas uma, que vocês acham que te definem. Valendo!

A única notícia boa é que as vítimas vão conseguir a tal definição em uma palavra:  morto.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Eu e você…

Começou antes de um dia dos namorados, uns dois anos atrás. A data, propícia para inícios, não permitiu um clichê: nada de amor à primeira vista. Não. O  fato é que nós já nos conhecíamos – e nos estudávamos - há algum tempo, faltava mesmo só engatar o relacionamento. E engatamos, eu com minha inexperiência nesses assuntos e um medo gigante do futuro. Você, experiente, um pouco mais rodada, mas nada que me levasse ao ciúme doentio. Eu já entendia que não é certo brigar por conta de amores passados…

Lógico que minha inexperiência deixou marcas. Sem saber o que fazer, fui algumas vezes brusco, duro demais. Em outras, lento  – eu  tinha a teoria, mas me faltava a prática, aquela do dia a dia, tão necessária em casos de amor. Minhas dúvidas foram muitas, pareciam sem fim. Até onde exigir de você? Não estaríamos indo rápido demais?  Ou quem sabe você não desejasse mais velocidade? Ou atitudes mais impulsivas? Quais eram nossos limites? Será que você sentia falta do seu parceiro anterior? (ok, admito que, só no comecinho, bateu um ciúme sim).  É óbvio que, se eu tinha chegado até ali, as dúvidas típicas da adolescência já tinham passado. Eu sabia o que fazer, como lidar com você, como encostar em você… o problema é que eu não entendia claramente as suas preferências, os seus sentimentos. Fica aqui minha confissão: por inexperiência, te machuquei. Mas hoje, juro (e você sabe disso) que foi sem querer. Pra cada arranhão, ferida e dor que causei em você, minhas sinceras desculpas.

Juntos, vivemos aventuras, realizamos sonhos. Você me viu chorar tantas vezes, debruçado em seu corpo. Você – aparentemente inexpugnável – desmoronou em lágrimas de tempestade, dor que te afligia por dentro. Hoje, dois anos depois, são tantas coisas pra recordar… você lembra da nossa primeira viagem juntos? Estávamos tensos, eu e você, sabendo que aquele momento ficaria guardado em nossas histórias. E o que dizer de nossas brigas? Foram poucas, principalmente se compararmos com outros relacionamentos mais instáveis, mas certamente deixaram lembranças. Você lembra quando eu disse que pensava em te trocar por outra? Péssima ideia, algo dito só mesmo para te ferir em um momento de tensão. E quando você, logo na hora H, resolveu dormir, me deixando, digamos, na mão? Olha, aquilo não foi  legal não…

Dois anos e alguma coisa depois, cá estamos nós – ainda juntos, e cada vez mais ligados. Não conheço o futuro e acho complicado prever o nosso final. Mas uma coisa te garanto: no meu coração, a vaga de primeiro carro será sempre sua.

P.S. : No dia 10 de junho de 2009 eu comprei o meu primeiro carro. Um Celta preto, cuja placa revelava um nome nada normal para veículos: Géssika. Nós últimos dois anos - e uns 30 mil quilômetros - vivemos juntos. Claro que o aniversário da compra é inesquecível, afinal a data está marcada em cada uma das 36 parcelas que ainda preciso pagar. No quinto aniversário soltarei fogos comemorativos.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Hey Jude

Desde sempre minha música favorita. E não apenas  na categoria Beatles – o que já seria grande coisa – mas a Top das Tops mesmo, a melhor de todas.  A escolha, quando relatada em conversas de mesas de bar, sempre gerou controvérsias. Escutei inúmeros “não concordo” e “não curto tanto assim”. Eufemismos em que o real significado era outro: “É uma escolha clichê demais para ser sua favorita.” Sim, clichê, porque “Hey Jude”, afinal de contas, foi o single mais vendido dos Beatles. Então não é como se eu escolhesse "Don't Pass Me By",  "Wild Honey Pie” ou mesmo a controversa “Ob-La-Di, Ob-La-Da” (que eu curto também e se você não gosta o problema é seu).

Ao mesmo tempo, gostar de Hey Jude pode ser uma contradição. Tenho preguiça, por exemplo, de Yesterday, e os culpados são todos os professores de inglês inconsequentes que estragaram a música, ao menos pra mim, ao usarem ela nas salas de aula uma vez por semana. Com Hey Jude, também tocada exaustivamente, deveria acontecer a mesma coisa.

Mas não aconteceu. A explicação, como não poderia deixar se ser, está na letra e aquilo que ela significa pra mim. Me emociono desde que que ouvi a canção pela primeira vez – pelo menos desde que comecei a prestar atenção nas tais aulas de inglês e fui capaz de entender a letra - e isso já a partir do “take a sad song and make it better”. Já Yesterday, mesmo com o roteiro comum às vidas de todos os jovens-adolescentes-que-levam-um-pé-na-bunda, nunca significou muita coisa pra mim.

Só mais tarde fui descobrir a história por trás de Hey Jude – lembrem-se que fui adolescente no período cretáceo da internet discada – e então o apreço que eu tinha pela canção aumentou, com ela chegando ao primeiro lugar do meu Top 5. Deduzo que os 17 leitores do blog conhecem a história, afinal uns 7 deles estavam comigo no show do Paul no Rio, domingo passado. De qualquer forma, deixo um breve parênteses.  Paul McCartney compôs Hey Jude para Julian Lennon, filho de John com sua primeira mulher, Cynthia. John e Cynthia estavam se divorciando e Paul resolveu fazer uma visita para consolar o filho do casal. Nas palavras do Paul, em “The Beatles Anthology”: “Tipo, qual é cara, seus pais estão se divorciando, sei que não esta feliz, mas você ficará bem.” Fim de parênteses.)

Tirando o fator “filho de um Beatle e uma das maiores personalidades do século XX,” de resto tenho semelhanças com o Julian Lennon - também passei pelos traumas de um divórcio dos pais durante a infância. Como a maior parte das crianças da sua geração, você vai dizer. Sim, é verdade, mas isso não diminui o significado que a música tem pra mim. Realidade aumentada a cada novo problema que a vida adulta traz, a cada novo desafio… 2011 não tem sido fácil. Desde o dia 10 de janeiro salvaram-se meia dúzia de dias, sendo o mais especial deles o último domingo. Culpa do Paul, que, agora tenho certeza, não compôs Hey Jude apenas pro Julian. E culpa também de quem teve a ideia de levar os cartazes da foto aí debaixo, transformando a música num espetáculo visual fantástico, em uma cena  inesquecível. Ao dono dessa ideia brilhante, meu muito obrigado! Complicado é só parar de assistir ao vídeo – com os olhos cheios de lágrimas  -  todos os dias…



“And anytime you feel the pain,
Hey, Jude, refrain,
don't carry the world upon your shoulder”

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Paul

Quando eu nasci meus ídolos já estavam mortos. O sonho dos Beatles tinha acabado e o Lennon, num previsão irônica,  tinha deixado claro que todo rei é morto por seus súditos. Nasci depois de Star Wars e do Poderoso Chefão; quando o faroeste já era um estilo decadente no cinema e o Tolkien, já morto, escrevia apenas pelas mãos de seu filho, numa espécie de psicografia literária que não produziu bons frutos. Elvis - há muito convertido numa caricatura de si mesmo – já tinha salvado sua carreira de forma sábia, ainda que até hoje não acreditem nisso. Os poucos sobreviventes não tardaram a partir: só vi o último show do Renato e sua Legião Urbana graças ao Google; Michael Jackson seguiu - e foi além - do sogrão e em pouco tempo estava convertido em freak show (o fim de fato também não foi muito diferente); e o Kurt Cobain não demorou a fazer algo que ele anunciava em boa parte de suas músicas. Pra encerrar, assisti ao fim da TV Manchete e seus Cavaleiros do Zodíaco, mais ou menos na mesma época em que um avião matou os Mamonas Assassinas e o Senna passava pela curva Tamburello. Fim.

Nunca fui muito de shows. Na realidade, minha ligação com bandas segue uma relação de causa e efeito mais ou menos parecida com a frequência em que lavo meu carro: quando lavo, chove. Se me apaixono por uma banda, os integrantes anunciam que vão parar de tocar. Deve ser por isso que não sou um insaciável desbravador de novos sons - temo pela continuidade de nossa cultura musical. Dessa forma, poucas vezes fui em shows das minhas bandas favoritas, e isso simplesmente porque elas não existem mais.  Isso até o último domingo.


Não posso dizer que vi uma apresentação dos Beatles. Não. Eu vi um show apenas do Paul McCartney. Só que o "apenas" aqui tem características grandiosas: apenas o melhor compositor de música pop de todos os tempos; apenas um dos dois homens vivos que participaram da beatlemania; apenas um integrante da melhor banda de todos os tempos; apenas o autor de um punhado de músicas que desde sempre coloco como minhas favoritas... É complicado explicar o que eu esperava do show, principalmente depois de ter perdido os do ano passado, em São Paulo. E depois? Já se vão três dias e continuo sem palavras. Deixo isso com o Paul.


P.S. Check List - Um Beatle já foi. Agora que venha o Ringo. Mas se o Paul resolver passar pelo Brasil de novo eu não ligo não.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Anônimo

-Diga seu nome e como você veio parar aqui, meu filho.

-Olá! Tudo bem com vocês? Então, meu nome é anônimo. E eu não acho que precisava vir aqui. Sabem como é, não que eu ache vocês chatos e tal, mas é só que não tem muito motivo...

-Você não precisa ficar envergonhado. O primeiro passo para a cura é justamente assumir. Você precisa aceitar o seu problema, admitir a derrota completa. Repita comigo: a garrafa me derrotou. Minha vida está destruída.

-Mas a garrafa não me derrotou! Olha, vocês não estão entendendo! Eu não sou um bêbado! Eu nem bebia! Comecei outro dia, durante o feriado da semana santa. E nem bebo tanto assim. É só que acham que eu exagerei um pouco. Falam que eu não faço meu trabalho mais... que eu não quero mais sair de casa, não quero mais nem conversar com os outros iguais a mim.

-Isso. O primeiro passo! Muito bom!  Vamos agora pedir que Deus nos ajude a trazer de volta a sobriedade...

-Mas eu não acredito em Deus! Olha, essa ideia simplesmente não combina comigo! Eu nasci no mundo moderno, e não na bosta de uma oca! Primeiro você me fala que eu devo admitir que sou um derrotado. Depois você fala que só Deus me tira da merda? E agora? COMO EU FICO? HEIN?

-Calma! Saia de cima da cadeira! E largue o seu colega! SOLTA! ELE ESTÁ SUFOCANDO! Isso. Fique calmo. Quando eu falei Deus, não quis dizer o Deus judaico, o Deus cristão ou qualquer outro. Estamos falando do Poder Superior em que você acredita. Você precisa entender que existe uma ajuda de cima, poderosa! Me diga, em qual poder você acredita?

-Qualquer um?

-Sim, qualquer um. Só não venha com a piadinha do Brahma, que essa já é batida.

-Mas não é bem um Deus. É só que eu sempre pensei que, se existisse um Deus,  seria como ele. Só isso.

-Muito bom! Quem é?

-O Google.

-Oi?

-É, o Google! Não valia qualquer Deus? Ele responde todas as minhas perguntas e me ajuda a comungar com meus irmãos! Isso não basta? AGORA NÃO POSSO ESCOLHER NEM MEU DEUS MAIS? UM BÊBADO NÃO PODE ESCOLHER SEU PRÓPRIO PANTEÃO??

-SOLTE ESSA GARRAFA! Não permitimos bebida alcoólica aqui. Vou  ficar com isso! E também vou apreender essa carteira, por via das dúvidas. Não quero que você saia daqui e vá direto pro bar, do outro lado da rua. Agora, acalme-se! Não chora! Tudo bem, se você acredita mesmo nesse Google você pode ficar com ele, tá?

-Então o Google pode ser meu Deus?

-Pode.

-E o internet explorer pode ser o Diabo?

-Nós falamos sobre o Diabo depois, no passo 12. Agora vamos para o terceiro passo. Precisamos deixar que o seu Poder superior assuma a direção da sua vida. Como seu Deus é meio, hunnn, inusitado, não sei como fazer...

-Isso é fácil. O Google já guia toda minha vida.

-Sério?

-Sim. Outro dia precisei aprender a dar um nó de gravata. Perguntei ao poderoso Google, e até isso ele me respondeu. Não tem o que ele fique sem saber.

-Interessante. Agora, deixa eu tomar um pouco dessa garrafa que você trouxe aqui. Deu uma sede agora. Alguém me passa um copo? Isso. Bom, continuando, o passo número quatro envolve fazer um inventário da sua vida. Pense no que está errado, para assim tentar alcançar a cura, com a ajuda do Deus Google.

-Não fiz tantas coisas erradas assim, na realidade. Eu não bebia. Só trabalhava. Fazia meu serviço direitinho. Até que empurraram cerveja pela minha goela, durante um serviço normal, de final de semana. Desde então não consegui largar mais o vício. ME PASSA A GARRAFA!

-Acalme-se! Você está tremendo! É UM CONVULSÃO! SEGUREM ELE! ALGUÉM DESENROLA A LÍNGUA DO CARA! Só temos uma saída! Odeio fazer isso, mas não tem jeito. Quais são os três botões mesmo? Acho que Ctrl, Alt e Del. Isso. Pronto. Calma. Tudo vai ficar bem. Alguém vai no segundo andar e chama um técnico de informática, por favor...

No final de abril de 2011 meu fiel notebook se envolveu em um acidente com um copo de cerveja. Após um breve período de coma alcoólico ele voltou a funcionar, mas nunca mais foi o mesmo. Hoje ele se recusa a entrar na internet, adormece repentinamente e tenta assaltos noturnos ao freezer. Após conselhos infrutíferos, encaminhei o elemento para um grupo de alcoólicos anônimos. Aguardo o retorno dele, curado, para continuar com a programação normal  - e na frequência adequada - do blog.

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