Eu até poderia dizer que o choque cultural foi causado pela quantidade de vacas e bois nas ruas das grandes cidades. Ou quem sabe por causa da comida daqui, dieta baseada em pão, gosma verde, pimenta, gosma vermelha e mais pimenta. Ou seriam os símbolos religiosos? Deuses azuis e com (vários) braços abertos em vez de um homem ensanguentado e com os (dois) braços pregados numa cruz. Tem gente que se impressiona com a suástica, aqui orgulhosamente pintada nas paredes das casas de gente que não tem a menor ligação com o nazismo e nem o costume de gritar Heil Hitler. Nada disso. Essas diferenças foram pequenas, coisa pouca a que eu facilmente me acostumei. O verdadeiro choque cultural, aquele me fez querer esconder debaixo da cama e rezar por uma tempestade de passagens de volta para o Brasil, foi causado pela… buzina.

A galera que frequenta esse lugar não é nazista.
Quando cheguei, eu não entendia sequer uma palavra na língua deles – fosse inglês ou hindi, não importava. Sotaque ou o fator outro idioma não permitiam a comunicação. Mas isso, isso eu compreendia. Palavras mudam de significado conforme o país. Buzinas não. Por trás de cada buzinada, seja no Brasil ou do outro lado do mundo, o mesmo mantra: desgraçado, filho da puta, lerdo. O grau de ofensa varia conforme o tempo que a mão fica na buzina. Se o motorista encosta de leve, aí tudo bem, pode ser só um “beleza, cara, como vai”; ou um “cuidado, a porta da frente do seu carro está meio aberta”. Pra buzinadas de mais de 2 segundos, nada de recado simpático. A mensagem é sempre ofensiva. Sempre.
Ahh, e como esses indianos buzinam, acho que uma vez a cada 4,3 segundos, mas faltam estudos aprofundados (Universidades britânicas, esse é um campo fértil para pesquisas infrutíferas. Fica a dica). Buzinam pra tudo. Buzinam pra dizer que querem passar. Buzinam para dizer que vão virar à esquerda. Buzinam se a conversão for à direita. Buzinam pra vaca. Buzinam pro cara de bicicleta. Buzinam de dia. Buzinam de noite. Buzinam durante um engarrafamento. Buzinam se estiverem sozinhos na estrada. Buzinam, sempre. Deve ser um dos esportes nacionais, junto com o críquete, o hóquei e a barganha. E o melhor: sem muitas regras. Basta buzinar.
Imagine o susto que uma pessoa que encara toda buzinada como ofensa levou ao desembarcar em um país que onde buzinadas são algo corriqueiro, nada de mais…
- Ok. Estamos no aeroporto. Agora temos que ir pra rodoviária. De lá damos um jeito de chegar em Chandigarh. O que vocBUUUUUOOOOEEENNNNNN. (Pulo de 2 metros. Malas e mochilas voam, motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)
- Até que Chandigarh é uma cidade interessante. Não é tão suja, desorganizada ou barulhenta. Vou tirar uma fotBUUUUUOOOOEEENNNNNN. (Pulo de 2 metros. Câmera voa. motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)
- Essa noite até que dormi bem. Silêncio é artigo raro na Índia. Mas hoje estou preparado para trabalhar e de muito bom humBUUUUUOOOOEEENNNNNN. ( Pulo de 2 metros. Bom humor voa pra longe e é substituído pela terrível vontade de enforcar um buzinador. Motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)
- Compramos macarrão, frutas, queijo, ovos… Faltou alguma coiBUUUUUOOOOEEENNNNNN. (Pulo de 2 metros. Ovos voam. Motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)
Hoje, sei que tudo não passa de um teste. Sabe aquele povo que viaja pra Índia em busca de algo espiritual? Bem, as buzinadas são parte do processo. Elas me ensinaram a manter a concentração. Me ensinaram a não mandar 1 bilhão e 2 milhões de pessoas pro inferno. Me ensinaram a ter paz e tranquilBUUUUUOOOOEEENNNNNN. (Pulo de 2 metros. Fim do devaneio, paz e tranquilidade voam, e eu ameaço correr atrás do maldito tuk-tuk, carro, ônibus ou seja lá o que for. Motorista vai embora, buzinando aleatoriamente. E muito feliz.)
A Índia é minha vaca, e nada me faltará. Agora sei que buzinas nem sempre significam desgraçado, filho da puta ou lerdo. Podem ser só um costume ou esporte local, assim como no Brasil gostamos de Futebol, Carnaval e de um pouquinho de autodepreciação. Eu não entendia sequer uma palavra na língua deles – fosse inglês, punjab ou bengali - mas mesmo assim aprendi a lição. Quando eu voltar ao Brasil, tenho certeza que vou encarar nossos trânsitos infernais como se fossem um resort de luxo no caribe. Nunca mais me ofenderei com uma buzinada alheia. Não. Agora sou uma pessoa calma e tranquilidade é meu sobrenomBUUUUUOOOOEEENNNNNN (Pulo de 2 metros. “Motorista desgraçado, fdp”. Ele vai embora, buzinando aleatoriamente. E feliz.)
P.S.: Sim, esse blog voltou. E sim, estou morando na Índia, mas acho que todo mundo já sabe disso. Conto todas as outras histórias sobre a Índia no blog 360meridianos. Esse aqui terá os assuntos de sempre com a regularidade de nunca.
Êee, ele voltou. Quero ver essa "regularidade de nunca".
ResponderExcluirEm tempo: essa foto da vaquinha é demais =)